Gestão da Ansiedade
Por que todo líder precisa administrar a sua ansiedade, e a dos outros
https://mitsloanreview.com.br/ansiedade-o-inimigo-silencioso-da-lideranca/
Segurança Psicológica no Trabalho – trabalho brilhante de Amy Edmondson et alii - é uma adoção recente muito bem vinda nas empresas, mas, como tudo que está na moda, existem implantações equivocadas e ângulos subexplorados
Amy Edmondson, a professora da Harvard Business School, nos trouxe em 2018 um assunto (o livro saiu aqui em 2020) que revolucionou o mundo empresarial quando demonstrou que, muito além de empresas que saibam conviver construtivamente com os erros de seus colaboradores (objeto do seu livro seguinte), as empresas desempenham melhor quando todo mundo se sente seguro para perseguir suas intuições, se expressar, e criar um clima ao seu redor que incentive a experimentação, a expressão, e a discussão. Inclusive para errar, e compartilhar o que aprenderam quando erraram.
Mais recentemente (junho de 2025; este é o artigo), a Profa. Amy nos alertou para aplicações bem-intencionadas mas contraproducentes das ideias dela. Eis os seis alertas dela (sei que fujo do meu tópico, mas menciono assim mesmo porque ainda não tem tradução, e ela de novo sub-enfatiza meu tema de hoje):
1. Não quer dizer ser simpático a ponto de evitar discussões. A segurança psicológica só existe quando as pessoas são delicadamente diretas e oferecem feedback construtivo
2. Não quer dizer que todas as ideias tenham que ser apoiadas. Claro que o líder deve considerar todas as contribuições, mas quando decide não tem que concordar com todo mundo
3. Não significa estabilidade dos empregos. Não existem mais empregos estáveis, a menos que você seja funcionário publico concursado!
4. Não reduz em nada a responsabilização das pessoas. Todo mundo é responsável pelos próprios erros. E o lider pode e deve lidar com eles todos
5. Segurança psicológica não pode ser imposta nem legislada. É criada no dia-a-dia, uma interação de cada vez
6. Ninguém precisa esperar por uma mensagem presidencial para acontecer. Todo colaborador com mais de três subordinados diretos pode e deve iniciar imediatamente seu próprio programa de segurança psicológica.
Eu revirei todo esse material gerado por ela sobre o assunto, e hoje quero escrever sobre um tema que ela ainda não abordou diretamente: a ansiedade, e como isto destrói qualquer ambiente de trabalho, em particular quando gerada pelo próprio líder.
Ansiedade:
• É contagiosa! Mais ainda quando ela começa na pessoa mais bem remunerada da sala
• Conforme o médico neurologista Leandro Teles, 80% dos casos (4 pessoas de cada 5) são tratáveis sem recurso a soluções terapêutico-farmacêuticas
• Faz um dano enorme na produtividade das pessoas, mais ainda quando se aproximam as entregas críticas (exatamente quando os ansiosos, na melhor das intenções, pretendiam o oposto)
• Por minar a Confiança entre as pessoas, também faz um dano grande na segurança psicológica de todos
No entanto:
• Tem gente que ainda acha que a adrenalina que a ansiedade traz é um mal necessário... E que, ao nos tornar os salvadores da pátria, agrega um componente messiânico à equipe. Vamos chamar isso de adrenalina messiânica
• Mais ainda se você trabalha em uma ONG. Como a maioria das ONGs tem objetivos que na prática são inalcançáveis durante a vida de seus colaboradores (exemplo: acabar com a fome no mundo) o que já observei na maioria delas é que a adrenalina messiânica é ingrediente crítico!
Existem hábitos bons (escovar os dentes) e ruins (fumar), e todos concordam que habituar-se a um (pequeno) nível de ansiedade é saudável porque traz foco. Thomas Borkovec, professor de psicologia, levantou uma bola importante em 1985:
A ansiedade é um hábito, antes de ser um distúrbio!
Conforme Borkovec, a maioria das pessoas ansiosas normalizou a ansiedade, transformando-a em um conjunto padrão de reações, que pouco ou nada têm a ver com a gravidade da situação. E menos a ver com sua predisposição genética, mas antes com a forma com que foram criadas e com suas primeiras experiências acadêmicas e profissionais. Então boa parte dos 80% referidos acima pode ser administrado, desde que compreendamos que trata-se de um hábito. O artigo original dele está aqui.
Em 1987, dois anos depois do artigo do Prof. Borkovec, a Eli Lilly lançou o ansiolítico Prozac, que rapidamente tornou-se um fenômeno cultural. Inaugurou a era das lifestyle drugs. De uma hora para a outra, surge a sedutora mensagem: a ansiedade é um transtorno médico, com solução farmacêutica. Uma pílula resolve tudo. O mundo rotulou o resto de papo de divã. E, fora umas poucas pessoas no mundo da psicologia, todo mundo esqueceu do Borkovec, que pelos trinta anos seguintes continuou pesquisando e publicando sobre este e temas correlatos. Hoje está aposentado da Pennsylvania State University. Esteve no Brasil em 2008, para uma série de palestras, e deu esta ótima entrevista para a psicóloga Adriana Nunan do depto de psicologia da PUC/RJ.
Encerrando, para todo mundo que me lê com mais de três subordinados:
• observo nos meus clientes que Gestão da Ansiedade frequentemente aparece na lista que negociam comigo das metas que pretendem atingir via coaching.
• para aqueles que não reconhecem a Ansiedade que têm/externam, observo que isto às vezes aparece com outra roupagem, Preocupação ou Raiva. Inicio então um lobby forte para que a encarem e a incluam como tema coachável.
• se você já identificou que sua ansiedade pode estar prejudicando seu desempenho e o de seus colegas, esqueça a recomendação da psicologia pop (“Já sabe? Então agora basta parar de fazer”) e reflita sobre que benefício real este comportamento lhe traz hoje.
E:
• se você quer iniciar uma campanha de redução de ansiedade ao seu redor, esqueça a solução-padrão: falando de Calma. Seu palavra-chave deverá ser Confiança!
Devo algumas das ideias acima ao post do Dr. Judson Brewer, um colega do Substack.
